QUANDO AS LUZES SE APAGAM (2016) - ANÁLISE - O MEDO DO QUE SE ESCONDE NAS SOMBRAS!
Por: Rudnei Ferreira
O medo do escuro é algo que praticamente todo mundo sente ou já sentiu na vida, principalmente na infância. Quem nunca, quando criança, sentiu medo da escuridão ao ponto de não conseguir ir na cozinha ou no banheiro no meio da noite sem a companhia de alguém? Eu mesmo fui um que viveu isso. E é com essa premissa que o diretor David F. Sandberg trabalha em ''Quando as luzes se apagam'', um terror sobrenatural que brinca com o medo do escuro ao ponto da mente formular o que poderia estar escondido na escuridão enquanto as luzes estão apagadas. Ao seu lado está James Wan, um dos maiores nomes do terror na atualidade, responsável pela direção dos ótimos ''Invocação do mal'' e ''Invocação do mal 2''.
Sandberg e James Wan já haviam trabalhado juntos como diretor e produtor no filme ''Annabelle 2: a criação do mal'' de 2017, mas antes disso, se aventuraram nesse terror que tem como inspiração o curta metragem ''Lights Out'' de 2013, escrito e dirigido pelo próprio Sandberg e que fez muito sucesso na internet. Com a popularidade dos filmes ''Invocação do mal'', que deram origem à uma franquia cinematográfica de sucesso e com o sucesso do curta metragem na rede, a Warner Bros. e a New Line deram permissão para James Wan e David F. Sandberg ampliarem esse universo do curta de terror em um longa metragem. O resultado é satisfatório, garantindo um filme onde o suspense e o terror sobrenatural possuem um bom equilíbrio.
Na história, Rebecca (Teresa Palmer) é uma jovem marcada por um passado cheio de experiências assustadoras e traumáticas e, portanto, decidiu sair de casa e seguir sua vida, acreditando que tudo poderia ser diferente. Anos depois, ela começa a perceber que seu irmão mais novo Martin (Gabriel Bateman) está passando pelos mesmos problemas, sendo que todos eles estão relacionados ao passado de sua mãe (Maria Bello) que sofre de uma grave depressão. Conforme tentam ajudá-la, Martin e Rebecca descobrem algo muito mais sinistro e assustador: Diana (Alicia Vela-Bailey), uma entidade sobrenatural maligna e perigosa, que possui uma forte ligação com sua mãe e só se manifesta na escuridão, colocando em risco a vida deles e de quem mais entrar em seu caminho.
''Quando as luzes se apagam'' tem como referência a franquia ''Invocação do mal'', já que David F. Sandberg segue os mesmos caminhos de James Wan. De fato, o longa facilmente se encaixaria como um capítulo do universo compartilhado idealizado por James Wan, mesmo que, oficialmente, esse não seja o caso. É uma história clichê e pouco inovadora, mas o roteiro consegue trabalhar muito bem com esses clichês, em um filme cheio de tensão e sequências que não apelam para sustos baratos. Como citado acima, o filme aborda o medo provocado pela escuridão. Mais do que isso, o medo de algo assustador que possa estar escondido nas sombras, pronto para atacar onde há ausência de luz.
Um dos principais temas presentes na história é a depressão e a dor do luto. Esses temas funcionam como metáforas dentro dos acontecimentos na história, de forma inteligente e bem trabalhada. Algo semelhante pode ser visto em bons filmes como ''O babadook'' e ''O amigo oculto'' , onde as mesmas temáticas metafóricas são semelhante. Por conta disso, o filme de Sandberg não é inovador em seu conteúdo, mas assim como esses dois exemplos citados, desenvolve muito bem seus temas principais. E o melhor de tudo, funciona.
O diretor sabe criar a atmosfera perfeita de medo provocado pelo escuro e faz isso através da iluminação. Como a criatura só se manifesta na escuridão, a fotografia com cores mais escuras tomam conta da tela, tendo como única iluminação, nas cenas mais tensas, as luzes de velas, lanternas ou pequenas lâmpadas nos ambientes, reproduzindo bem a sensação sombria e angustiante exigida pelo roteiro. Mesmo com a maioria das cenas se passando no escuro, é perfeitamente possível entender tudo o que está acontecendo. E a direção cria a urgência do perigo caso essas pequenas fontes de luz venham a faltar, deixando o público tão aflito quanto os personagens em cena. Os movimentos de câmera, que brincam com silhuetas e vultos, a montagem e a edição de som contribuem com a atmosfera sinistra em torno da macabra figura de Diana. Além disso, o equilíbrio perfeito entre efeitos visuais digitais e efeitos práticos, unido por sua voz fria e arrepiante, tornam a criatura bem medonha e assustadora. O fato da iluminação mantê-la nas sombras, sem mostrar detalhes de sua aparência foram decisões mais do que acertadas da direção e do roteiro, deixando que a imaginação do público construa a imagem da macabra personagem.
Em filmes de terror, quase sempre, os personagens são incluídos na história unicamente para morrer, sendo tão irritantes que o público acaba torcendo para que eles levem a pior. Felizmente não é o caso de ''Quando as luzes se apagam''. Além dos personagens serem muito bons, eles são bem desenvolvidos. Suas motivações fazem sentido, tornando muito fácil a quem assistir o filme se importar com os dramas e o destino de cada um deles.
Teresa Palmer possui carisma e entrega uma boa interpretação para sua protagonista. É possível entender suas mágoas e dramas e a jovem atriz faz um bom trabalho na composição de personagem. O pequeno Gabriel Bateman passa muito bem a imagem da criança traumatizada e assustada, ao mesmo tempo que seu personagem se mostra uma criança inteligente e esperta, seja pelos seus diálogos quanto pelas suas atitudes.
A experiente Maria Bello apresenta uma personagem cuja suas atitudes questionáveis se baseiam muito em seu trauma pessoal. Tanto que, graças ao talento da atriz, a dor transmitida pela personagem é muito real, sendo possível vê-la através do seu olhar, na angustia em sua voz e em suas expressões. Alexander DiPersia tem menos relevância na trama, mas participa de bons momentos. Sem dar spoilers explícitos, em uma determinada cena, o seu personagem passa a sensação de ser mais um que foge correndo para se salvar. Mas esse clichê é abandonado, surpreendendo por não ser algo repetido dentro do gênero.
Vale mencionar as boas participações de Billy Burke e Lotta Losten na cena inicial, onde protagonizam duas sequências genuinamente bem produzidas e assustadoras. Lotta Losten, mulher do diretor na vida real, merece atenção por fazer uma homenagem ao curta metragem que deu origem ao filme e que ela própria também protagonizou. A cena em que ela participa no filme é basicamente igual a do curta, sendo um fã service bem legal de se ver para quem conhece o material de origem.
Mesmo clichê, ''Quando as luzes se apagam'' é um entretenimento genial que usa o nosso antigo medo do escuro como fio condutor da trama ao mesmo tempo que trata de assuntos sérios, sem faltar com respeito, como um dos temas principais. Bem dirigido, com uma boa história e com personagens bem relevantes, o filme é uma super recomendação para quem curte bons sustos e uma atmosfera arrepiante. E sim, Diana merece ser lembrada como uma das entidades sobrenaturais mais legais e assustadoras do gênero.
Nota: ★★★★★★★★★ 9
QUANDO AS LUZES SE APAGAM (LIGHTS OUT - 2016) - Terror/Suspense, 81 Minutos. / DIREÇÃO: David F. Sandberg. - ELENCO: Teresa Palmer, Maria Bello, Gabriel Bateman, Alexander DiPersia, Billy Burke, Lotta Losten, Alicia Vela-Bailey. CLASSIFICAÇÃO: 14 Anos.












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