Doutor Sono (2019) - Análise - A sequência de ''O Iluminado'' é uma experiência cinematográfica satisfatória!
Por: Rudnei Ferreira
O ano é 1977, e Stephen King, considerado um dos maiores e mais aclamados escritores de todos os tempos, lançava ''The Shining'', ou como ficou conhecido no Brasil, ''O Iluminado''. O livro de suspense e terror psicológico fez tanto sucesso que alavancou e firmou o autor como um grande romancista, fazendo desta uma das obras literárias mais aclamadas e respeitadas de sua incrível carreira como autor de livros e também da história da literatura mundial. Tamanha importância do livro é vista até os dias de hoje, já que ''O Iluminado'' é uma das primeiras obras que vem na cabeça dos fãs e admiradores quando se menciona o nome de Stephen King. Tal sucesso não se reservou apenas ao livro, já que em 1980, apenas três anos depois, foi lançada a adaptação cinematográfica da história escrita por King. Estrelado por um jovem Jack Nicholson e dirigido por Stanley Kubrick, sem dúvida um dos melhores cineastas que o cinema já viu, o filmaço ''O Iluminado'' dividiu a opinião da crítica e do público na época do seu lançamento, arrecadando uma bilheteria morna, além de ser criticado pelo próprio Stephen King que até hoje detesta a adaptação do seu livro para as telas. No entanto, com o passar dos anos, as opiniões foram mudando, com muitos reavaliando e reconhecendo os méritos do longa. Tanto que nos dias de hoje, o longa de Kubrick é considerado um dos melhores filmes de terror e suspense de todos os tempos e um dos melhores filmes da história do cinema. E mesmo que de fato possua mudanças significativas em relação ao livro, ''O Iluminado'' de Stanley Kubrick é um ótimo filme, sendo um clássico praticamente obrigatório para qualquer amante do bom cinema
Eis que chegamos ao filme de hoje. Quando foi anunciado que a sequência para o clássico de Stanley Kubrick seria lançada em 2019, 39 anos depois do lançamento de ''O Iluminado'', algumas pessoas, incluindo eu mesmo, ficaram apreensivas. Afinal, como superar ou pelo menos se igualar a genialidade espetacular vista no filme de 1980? seria possível que esse novo filme conseguiria ser tão bom quanto? Para a minha alegria e talvez para muitos fãs da obra de King, ''Doutor Sono'' dirigido por Mike Flanagan (do igualmente bom ''Hush: A Morte Ouve'') consegue ser um filme que respeita como um todo o longa de Kubrick, trazendo uma história igualmente boa e interessante. Flanagan já havia dirigido uma adaptação de King para as telas em 2017 no envolvente, agoniante e tenso ''Jogo Perigoso'', sendo esse um bom filme original da Netflix. E com ''Doutor Sono'', que por sua vez é baseado no livro de 2013 escrito por Stephen King, o diretor fez outro bom trabalho.
Anos se passaram, desde que Danny (Roger Dale Floy/Ewan McGregor), quando era apenas uma criança, testemunhou e sobreviveu aos terríveis acontecimentos no sinistro Hotel Overlook que fizeram o seu pai enlouquecer tragicamente. Agora já adulto, traumatizado e viciado, ele tentar fugir e esquecer os seus traumas do passado, até mesmo deixando de lado as suas habilidades e dons especiais. Porém, tudo muda quando ele conhece Abra (Kyliegh Curran), uma jovem com as mesmas condições especiais que ele e que está sendo perseguida por um grupo de estranhas pessoas lideradas pela misteriosa Rose (Rebecca Ferguson). Agora, Danny precisa superar seus medos e traumas para ajudar a proteger a adolescente dessa grande ameaça.
''Doutor Sono'' tem tudo para agradar aqueles que gostaram de ''O Iluminado''. Isso porque o filme amplia o universo criado por King que foi trazido para as telas com maestria por Stanley Kubrick, em uma narrativa que prende a atenção com sua história cheia de grandes momentos e surpresas reveladoras. É um filme cheio de referências e homenagens ao filme anterior, mas que não se agarra apenas a isso para justificar a sua existência, pois conta com uma história própria e sabe caminhar muito bem com as próprias pernas, deixando de ser apenas uma repetição do que foi visto no clássico de 1980. Possui um ritmo calmo e tranquilo em seu primeiro ato, sem pressa em fazer com que a trama avance, e isso é muito bom, já que esse ritmo mais brando gasta o tempo necessário para estabelecer a sua premissa e apresentar os seus principais personagens, que são muito bons. A partir do segundo ato, as coisas esquentam e a narrativa nos conduz por uma montanha-russa de acontecimentos marcantes e sequências fortes, viscerais e até mesmo perturbadoras em alguns momentos, equilibrando muito bem o drama, o suspense e a tensão. E nessa jornada, os dramas pessoais do protagonista são muito bem explorados na tela, já que o roteiro é muito bem escrito. É uma história que fala sobre o medo, os traumas e as causas e consequências disso na vida do protagonista, que faz com que ela fique ainda melhor e interessante se nos basearmos no que Stanley Kubrick já tinha estabelecido em ''O Iluminado''. Assim como na maioria de suas obras, Stephen King utiliza a fantasia e o sobrenatural no livro ''Doctor Sleep'' para falar de temas sérios e metafóricos sobre abusos, sejam eles físicos ou psicológicos, mostrando como isso pode deixar marcas profundas na vítima pelo resto da vida. E é justamente através da história de Danny que o roteiro trabalha com esse conteúdo. King fez um trabalho fascinante e reflexivo em sua obra e Mike Flanagan soube transpor muito bem esse conteúdo para a tela.
Ao longo de suas 2 horas e meia (ou no meu caso 3 horas, já que eu conferi a versão estendida), a familiaridade estabelecida pelo filme com esse universo é inquestionável, mas é no terceiro ato que os amantes de ''O Iluminado'' ficarão realmente satisfeitos, já que as várias homenagens ao filme de Stanley Kubrick são evidentes e trazem grande satisfação, tornando tudo um verdadeiro festival de fã-servisse, despertando no público uma inegável nostalgia. E o melhor disso é que essas referências se encaixam muito bem dentro da trama desse filme, fazendo sentido para o desenrolar da narrativa. Mike Flanagan quis tanto homenagear o filme de 1980 que até chega a utilizar em algumas sequências movimentos de câmera, enquadramentos e ângulos bem semelhantes aos de Kubrick. Todo o clima sombrio e aterrorizante transmitido através da cinematografia, da trilha sonora e do design de produção também servem como uma maneira de homenagear a carga sombria e assustadora de ''O Iluminado'', e não há como negar que a direção fez um bom trabalho em proporcionar isso. Claro, Flanagan não chega aos pés do brilhantismo de Kubrick, mas soube preservar sem jamais desrespeitar o legado deixado pelo diretor de ''2001: Uma Odisseia no Espaço''.
O elenco, como forma de coroar o respeitável trabalho de Flanagan se sai absurdamente bem, sendo que cada membro se compromete e se entrega aos seus personagens. O ótimo Ewan McGregor está muito bem, já que o ator da conta de encarnar a versão adulta problemática e traumatizada de Danny com muito comprometimento e talento. O roteiro e a direção o favorecem bastante e Ewan se mostra uma escolha acertada para dar vida ao interessante protagonista. A jovem Kyliegh Curran, embora inferior, tem os seus bons momentos. A química entre eles é muito boa e a jornada de ambos é muito interessante, digna de despertar o interesse do público. Sem contar que sua personagem é uma boa adição a esse universo. Rebecca Ferguson tem o necessário para compor uma antagonista memorável e ameaçadora. E felizmente, ela consegue. Com sua beleza, charme e poder manipulativo de persuasão, ela se revela uma vilã carismática e assustadora na medida, com um propósito plausível e intenções que realmente convence. Já os demais membros do elenco estão operantes e servem bem ao seu propósito dentro da trama, com destaque para a pequena participação de Jacob Tremblay, ator mirim de filmes como o drama ''Extraordinário'' e a comédia ''Bons meninos'', protagonizando uma das cenas mais fortes e perturbadoras do longa, ainda mais por causa do seu contexto envolvendo uma criança.
''Doutor Sono'', em comparação com ''O Iluminado'', está um degrau abaixo da brilhante obra dirigida por Kubrick, mas mesmo assim, agrada por ser uma sequência correta, bem estruturada e digna para esse que é um dos maiores clássicos da história do cinema. É referencial e nostálgico, mas sabe contar uma história própria. E o mais gratificante disso é que a história é muito boa, levando quem assistir a ir um pouco mais além para descobrir novos detalhes e surpresas desse fascinante universo de terror, drama e suspense criado por Stephen King. Na opinião deste que vos escreve, ''Doutor Sono'' merece estar na lista das melhores continuações do cinema atual.
Nota: ★★★★★★★★★ 9
DOUTOR SONO (DOCTOR SLEEP - 2019) - Terror/Suspense/Drama, 144 minutos (versão de cinema), 185 minutos (versão estendida). ESCRITO E DIRIGIDO POR: Mike Flanagan. ELENCO: Ewan McGregor, Kyliegh Curran, Rebecca Ferguson, Alex Essoe, Roger Dale Floy, Carl Lumbly, Zahn McClarnon, Jacob Tremblay, Bruce Greenwood, Cliff Curtis, Carel Struycker. CLASSIFICAÇÃO: 16 anos. NOTA NO ROTTEN TOMATOES: 78%
- Existem pelo menos três tomadas feitas para o filme ''O Iluminado'' que foram reaproveitadas pelo diretor Mike Flanagan em ''Doutor Sono''.
- Mesmo não gostando do gênero terror, a atriz Rebecca Ferguson aceitou atuar no filme por ser uma grande fã da obra de Stephen King.
- Ewan McGregor, Dan Stevens, Chris Evans, Matt Smith e Jeremy Renner se reuniram juntos com o diretor Mike Flanagan para realizar testes para interpretar a versão adulta de Danny Torrence. Por fim, o escolhido para o papel foi Ewan McGregor.
- A ideia de escrever o livro ''Doutor Sono'' ocorreu a Stephen King depois que um leitor lhe questionou o que havia acontecido a Danny e Wendy Torrence no final de ''O Iluminado''. Como forma de responder a essa pergunta, King escreveu a sequência.
- A cena onde o personagem de Jacob Tremblay é torturado pelos vilões era para ser bem mais brutal e violenta. Porém, o diretor foi convencido por Stephen King a deixa-la menos pesada, cortando bastante da violência explicita. De acordo com Mike Flanagan, essa foi a única intervenção do autor para o filme.
- Mike Flanagan só recebeu a benção de Stephen King depois de convencê-lo que a versão cinematográfica de ''Doutor Sono'' não seria exatamente uma sequência do seu livro e sim uma continuação do filme de Stanley Kubrick. E diferente do que aconteceu com ''O Iluminado'', King aprovou o resultado final.
- Assim como foi com o filme de Stanley Kubrick, ''Doutor Sono'' não foi bem nas bilheterias, pagando apenas os seus custos de orçamento, mas não lucrando. Porém, o filme de Mike Flanagan foi bem elogiado pela crítica.










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