A Paixão de Cristo (2004) - Análise - Mel Gibson e sua versão pesada e emocionante de uma das maiores histórias do mundo!
Por: Rudnei Ferreira
Jesus Cristo é provavelmente a figura religiosa mais famosa do cristianismo e um dos personagens mais inesquecíveis presente nos textos da Bíblia Sagrada. Afinal, independente se você acredita ou não nas escritas religiosas, é impossível dizer que nunca ouviu falar de Jesus. A história do messias enviado por Deus para salvar a humanidade dos seus próprios pecados é uma das mais antigas e famosas do mundo e é até hoje um símbolo de fé, amor, compaixão e inspiração para milhões de pessoas. Foram várias as versões cinematográficas ao longo dos anos que contaram a jornada do salvador, sendo uma das mais famosas a minissérie de 1977 ''Jesus de Nazaré'' que acabou sendo convertida para um filme de um pouco mais de seis horas de duração. A obra estrelada pelo ator Robert Powell foi um grande sucesso de público e crítica e é celebrada até os dias de hoje, especialmente na época da páscoa, vista por muitos como a obra definitiva que adapta os relatos da Bíblia sobre o messias filho de Deus.
Porém, quase três décadas depois, em 2004, chegou aos cinemas aquela que se tornaria a versão mais polêmica e mais ambiciosa de todas. Escrito, produzido e dirigido pelo ator Mel Gibson, ''A Paixão de Cristo'' chocou as plateias do mundo inteiro devido ao seu conteúdo extremamente impactante, mas provavelmente na melhor versão dessa história que já foi levada para as telas, pelo menos em partes. Embora ''A Paixão de Cristo'' seja sim um filme destinado para quem tem estômago forte e nervos de aço, Mel Gibson trouxe para as telas gigantes dos cinemas um longa promissor e muito interessante que vale a pena ser conferido por aqueles que tem mente aberta. É um turbilhão de emoções e sentimentos do início ao fim.
O filme narra as últimas 12 horas de vida de Jesus Cristo (Jim Caviezel), o homem visto por muitos como um messias que foi enviado por Deus para salvar a humanidade dos pecados, trazendo mensagens de amor, fé e compaixão. Justamente por isso, ele é traído e julgado pelas suas ações consideradas blasfêmias e heresias. Inicia-se a partir dai uma jornada emocionante e ao mesmo tempo, extremamente trágica que mostra a glória e a queda de um dos personagens mais importantes e inesquecíveis da história do cristianismo.
Mel Gibson fez em ''A Paixão de Cristo'' algo completamente diferente do que já tinha se visto em outras adaptações cinematográficas sobre a vida de Jesus Cristo. Aqui, ele decidiu explorar tudo o que aconteceu com o salvador desde a sua captura pelos soldados romanos até a sua crucificação no monte calvário, fazendo uso de pequenos flashbacks no decorrer do longa para mostrar rapidamente outros momentos importantes da vida do messias, como sua infância, suas pequenas reuniões com os 12 apóstolos e os seus ensinamentos para o povo que o seguia. Porém, o longa realmente se concentra mais nas últimas horas do filho de Deus na terra e todo o terrível sofrimento pelo qual ele foi submetido em um clima bem mais pesado e sombrio. Sempre enxerguei na passagem da vida de Jesus na Bíblia algo que vai muito além da história de um homem bondoso e inspirador que veio a mundo unicamente com a intenção de pregar o amor, a compaixão e o poder da fé para milhares de pessoas. Através do seu sofrimento e das coisas terríveis que ele sofreu, a tragédia de Cristo nada mais é do que o retrato perfeito da perversidade humana, mostrando até que ponto o ser humano é capaz de ir para cometer tamanhas crueldades contra os seus semelhantes. No caso de Jesus Cristo, é realmente difícil entender o que foi que ele fez de tão errado para passar por tamanho sofrimento. E é ai que percebemos que o ser humano, desde aquela época, não tem limites quando o assunto é fazer maldade, mesmo que ainda existam muitas pessoas boas no mundo. Mel Gibson quis ir muito além de simplesmente rodar um filme chocante e polêmico. Foi a maneira que ele escolheu para nos fazer pensar e refletir sobre o ser humano como um todo e as causas e consequências das suas ações. Claro que para aqueles que não sabem nada sobre quem foi Jesus Cristo, o roteiro falha em não oferecer informações suficientes para entender o porque dele ter sido tão castigado e humilhado. Mas para quem conhece nem que seja o mínimo sobre a sua história, vai entender a intenção de Mel Gibson com o filme, deixando a mensagem bem clara no final.
Mel Gibson, com esse conteúdo nas mãos, realmente não quis poupar o público de um filme chocante, portanto, não é brincadeira ou exagero dizer que o seu longa é para quem realmente tem estômago e nervos de aço. Com o máximo de realismo possível, o diretor quis trazer para o espectador todo o sofrimento vivido por Jesus através de cenas fortíssimas, com direito a muita violência e sangue, onde nada é suavizado e tudo é exibido em detalhes. Cada golpe sofrido pelo messias é sentido até o fundo da alma por quem assiste essas cenas, o que torna impossível não sentir ódio ou repulsa por todos aqueles que lhe infligiram tamanho sofrimento físico e mental. Sequências conhecidas como aquela em que Cristo é chicoteado e espancado e até mesmo o famoso momento da crucificação causam aqui um incômodo imenso, como provavelmente nenhum outro filme sobre Jesus Cristo fez, pelo menos não nessa intensidade, ao ponto daqueles mais sensíveis e que se impressionam fácil quererem desviar o olhar devido a tamanha riqueza de detalhes na brutalidade sádica. É graças as performances do elenco e a direção de Mel Gibson, com direto a vários planos de câmera e foco nos detalhes que o impacto dessas sequências são sentidas ao ponto de serem bem difíceis de se acompanhar, o que mostra que toda a polêmica em torno da extrema violência do filme não foi apenas uma jogada de Marketing. É tanto que o ator e cineasta foi até mesmo acusado de ser antissemita. Independente se essa foi ou não sua intenção, ele fez bem o seu trabalho.
Vale destacar também o incrível trabalho de maquiagem, eficiente na hora de chocar e causar aflição diante dos terríveis ferimentos no corpo de Jesus. É um trabalho realmente excepcional. O design de produção do filme também é impecável e somado a fotografia com cores claras, mesmo para um filme tão sombrio e pesado, e os figurinos bem feitos, passam a sensação perfeita de época. A edição de som é grandiosa. Em alguns momentos, basta apenas ouvir o barulho dos chicotes, sem necessariamente mostrar o que está acontecendo para se sentir incomodado. E nos momentos mais explícitos, cada golpe parece que é sentido duas vezes mais. A trilha sonora é épica e extremamente carregada para o lado emocional e a montagem constrói muito bem as cenas, nos envolvendo em um misto de emoção, ternura, aflição e desespero.
A força do elenco também dá muito poder ao filme. Todos se empenham para entregar algo realmente digno e respeitável, mesmo que a proposta de Mel Gibson não seja a de desenvolver profundamente os personagens. Quem rouba a cena é Jim Caviezel, com uma atuação absolutamente brilhante e assustadoramente entregue. É realmente incrível como o ator transmite com eficiência toda a dor do salvador através da sua fisicalidade, suas expressões faciais e principalmente pelo se olhar penetrante, sem precisar dizer muitas palavras. Se não fosse toda a polêmica em torno do filme, o ator com certeza merecia ter recebido uma indicação ao Oscar de Melhor Ator. Uma performance dificílima, ainda mais com tamanho empenho para entregar algo legitimamente convincente, mas o ator conseguiu e está fantástico. Embora apareça muito pouco, a aparição de Rosalinda Celentano encarnando o Diabo causa arrepios só pelo simples fato de estar em cena. É uma versão meio andrógena, sombria e com um timbre de voz calmo, mas incomodamente assustador. É outro exemplo de performance brilhante. Já outros membros do elenco de apoio como as atrizes Maia Morgenstern, Monica Belluci, entre outros, estão apenas operantes, mas entregam personagens cuja as expressões de dor, sofrimento, zombaria, deboche, sadismo e angustia diante dos acontecimentos são bem realistas. Vale mencionar a escolha de Mel Gibson e seu empenho para que os diálogos fossem todos ditos em aramaico, que de acordo com alguns historiadores era o idioma falado na época, o que ajuda ainda mais no realismo e imersão proposto pelo diretor.
''A Paixão de Cristo'' é com toda a certeza um filme difícil de assistir e decididamente não é para todo mundo. Mel Gibson, mesmo com toda a polêmica em torno do seu forte conteúdo, dirigiu um filme com muita qualidade, cheio de simbologia, significados e reflexões sobre o lado cruel do ser humano, sendo praticamente impossível sair indiferente do filme quando os créditos finais começam a subir, independente de qual seja a sua religião ou crença. Afinal, mais do que um filme religioso, ''A Paixão de Cristo'' nos faz pensar que embora os séculos tenha passado, parece que a humanidade não mudou muito em relação as suas atitudes, mesmo que tudo o que Jesus tenha nos deixado é o seu amor, ao ponto de se sacrificar para que todos tivessem mais uma chance. No final, não importa no que ou quem você acredita, pois a grande pergunta que fica é: O que você tem feito para ser um ser humano melhor? pense nisso.
Nota: ★★★★★★★★★ 9
A PAIXÃO DE CRISTO (THE PASSION OF THE CHRIST - 2004) - Drama/épico, 126 minutos. ESCRITO, PRODUZIDO E DIRIGIDO POR: Mel Gibson. ELENCO: Jim Caviezel, Maia Morgenstern, Monica Belluci, Hristo Jivkov, Hristo Shopov, Luca Lionello, Rosalinda Celentano. CLASSIFICAÇÃO: 14 anos. NOTA NO ROTTEN TOMATOES: 50%
CURIOSIDADES:
- Durante as filmagens, o ator Jim Caviezel, que interpreta Jesus Cristo, foi atingido por um raio de verdade. Apesar do susto, ele não sofreu nenhum dano.
- Outra curiosidade envolvendo o ator e o personagem é que ambos tem as mesmas inicias JC em seus nomes, além do fato de que durante o envolvimento de Jim Caviezel com o filme, ele estava com 33 anos, a mesma idade de Cristo quando foi crucificado.
- O diretor Mel Gibson gravou a cena da crucificação durante duas semanas inteiras, até chegar ao resultado desejado por ele.
- ''A Paixão de Cristo'' possui diálogos inteiros falados em aramaico e latim, que de acordo com historiadores eram os idiomas falados na época em que Jesus Cristo viveu. A intenção original de Mel Gibson era rodar o filme sem usar legendas nos diálogos, utilizando apenas a linguagem corporal dos atores para contar a história. Porém, ele voltou atrás e inseriu legendas em algumas cenas.
- O filme foi indicado ao Oscar em 3 categorias: Melhor Fotografia, Melhor Maquiagem e Melhor Trilha Sonora. Porém, não venceu em nenhuma delas.
- Foi também indicado ao prêmio MTV Movie Awards na categoria de Melhor Ator para Jim Caviezel.
- Em 2006, a revista americana Entertainment Weekly elegeu ''A Paixão de Cristo'' um dos filmes mais controversos e polêmicos de todos os tempos, seguido pelo filme ''Laranja Mecânica'' do diretor Stanley Kubrick.
- É até hoje um dos filmes não falados na língua inglesa de maior bilheteria na história do cinema, com mais de 600 milhões arrecadados e um orçamento de 30 milhões.












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