Retrato de uma Jovem em Chamas (2019) - Análise - Uma linda obra de arte cinematográfica!
Por: Rudnei Ferreira
O cinema é mesmo uma arte maravilhosa, que nos leva para lugares, mundos e histórias fascinantes através de grandes produções cinematográficas. Hollywood sempre se destaca nisso e como bem sabemos, existem muitos exemplares de ótimos filmes produzidos pela indústria americana. Porém, eles não são os únicos. Vários outros países já deixaram sua marca no cinema, com produções cinematográficas de qualidade e excelência, tão bons quanto os filmes americanos. Como esquecer de ''A Vida é Bela'', produção italiana dirigida e estrelada por Roberto Benigni que levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Ou então um exemplo mais recente: ''Parasita'', filme coreano dirigido por Bong Joon-Ho que além de também levar a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro entrou para a história do cinema como o primeiro longa não falado em inglês a faturar o Oscar de ''Melhor Filme'', sendo uma grata e merecida surpresa para todos. Até mesmo o Brasil merece ser lembrado nisso. Afinal, o nosso país tem obras magníficas como ''Central do Brasil'', ''O Auto da Compadecida'', ''Tropa de Elite'' e ''Bacurau''.
Outro país que é referência quando o assunto é cinema é a França. Afinal, filmes como ''Azul é a Cor Mais Quente'', ''Tomboy'', ''O Fabuloso Destino de Amélie Poulain'' e o emocionante ''Amor'' são exemplos de filmes franceses que fizeram sucesso não apenas no seu país de origem, sendo elogiados tanto pelos cinéfilos quanto pelos críticos. E dentro deste contexto de longas franceses, temos um exemplar mais recente na lista de obras inesquecíveis. ''Retrato de uma Jovem em Chamas'' da diretora Céline Sciamma, é mais do que um filmaço do cinema francês, é uma verdadeira obra-prima cinematográfica. Uma autêntica obra de arte em forma de filme que foi injustamente esnobado no Oscar, mas é o tipo de produção que merecia o mundo.
A história se passa durante o século 18 na França, onde Marianne (Noémie Merlant), uma jovem artista plástica é contratada para pintar o retrato de Héloise (Adèle Haenel), uma jovem que, mesmo contra sua vontade, está prometida a casamento. A tarefa se torna mais complicada porque Marianne deve pintar a obra em segredo, sem que sua modelo desconfie de nada. Conforme os dias vão se passando, as duas jovens se aproximam cada vez mais uma da outra, despertando uma série de desejos e sentimentos em ambas.
''Retrato de uma Jovem em Chamas'' proporciona uma visão íntima e realista sobre a arte de se apaixonar e de amar. Sabe quando você encontra alguém especial ao ponto de criar um laço tão forte e verdadeiro com essa pessoa que acaba sendo inevitável não amá-la? Na vida, estamos ou estaremos sujeitos a essa situação e só quem já viveu ou vive tal momento especial ao lado de alguém que ama irá encontrar no filme algo extremamente forte, profundo e simbólico para se identificar e para investir seu tempo na trama. A jornada de Marianne e Héloise é de uma delicadeza e sensibilidade poética tão grandes que simplesmente nos encanta e nos envolve da primeira a última cena protagonizada por elas, tendo como resultado uma das mais belas e emocionantes histórias de amor do cinema atual. É muito mais do que um filme com temática LGBT. É a perfeita glorificação do amor, o sentimento mais forte e puro que existe. Quando ele se manifesta de forma verdadeira e honesta, não importa em quem seja, o importante de verdade é se render a ele e ser feliz. O roteiro escrito pela própria diretora Céline Sciamma é uma verdadeira obra de arte em todos os sentidos. Isso porque, além dos elementos cinematográficos, ele insere música, literatura e artes plásticas em um mesmo contexto, tudo como uma maneira de incrementar e tornar ainda mais rica a história das protagonistas, além de manter o espectador cada vez mais envolvido e imerso na trama que também fala de sentimentos reprimidos, discussões sobre a vida e a descoberta da sexualidade. De fato, depois de se aprofundar na história, fica impossível deixar de acompanhar, e isso é o resultado da direção e do roteiro envolventes e delicados.
O filme é, além de tudo, um espetáculo de técnicas audiovisual. Céline Sciamma entrega uma direção que, além de sensível, é extremamente detalhista e une a belíssima fotografia, os movimentos de câmera e a cinematografia, cheia de closes e planos abertos nas belezas naturais das locações para criar composições visuais que são literalmente verdadeiras pinturas de tão bonitas. É como uma metáfora visual, representando o ponto de vista de Marianne e como ela enxerga tudo e todos como forma de inspiração para o seu trabalho. Realmente deslumbrante. Pegue qualquer Take do filme que daria um belo quadro, pronto para embelezar uma parede com suas imagens magníficas. A edição e mixagem de som são absurdas, captando todos os tipos de sons ambientes, como o barulho das ondas, o crepitar do fogo, o som do vento e até mesmo o barulho dos passos pelo chão. Isso faz parte da imersão, pois até esses detalhes sonoros chamam a atenção e são importantes. Os figurinos são belíssimos, retratações perfeitas dos trajes que eram comuns do século 18, trazendo ainda mais beleza para o que já era belo. E para completar o espetáculo, a trilha sonora complementa a delicadeza poética do visual
As belas atrizes francesas Noémie Merlant e Adèle Haenel dão um show de intepretação na pele das protagonistas. Noémie traz doçura e um ar de curiosidade para sua personagem artista. Ela vende bem a imagem da profissional que o roteiro constrói para si e seu carisma e talento fazem toda a diferença nessa composição. Sem contar que, para mim, ela se parece fisicamente com a atriz Emma Watson. Sério, as duas poderiam ser irmãs. Já Adèle Haenel transmite com precisão toda a angústia reprimida que lhe causa amargura e tristeza. Graças a qualidade do roteiro, que a desenvolve bem, entendemos essa angústia e também os seus medos. Conforme a relação entre elas vai se intensificando e se desenvolvendo, o público se sente cada vez mais convencido com essa relação por conta da excelente química e interação entre as duas protagonistas. As vezes, muito mais do que as palavras, algumas trocas de olhares entre elas tem muito significado. O filme explora muito bem o clima sexual e romântico entre as duas, criando essa atmosfera com paciência e precisão. Inclusive, elas até protagonizam cenas mais quentes, com direito a sensualidade e nudez. Mas o grande diferencial de ter uma mulher na direção é que nenhuma dessas cenas são construídas com o propósito de servir como um fetiche para o público masculino, nem muito menos extrapolar no erotismo. É tudo extremamente bem cuidado, bem trabalhado, belíssimo e no ponto certo, fazendo com que tais momentos sejam muito mais românticos do que eróticos, e isso é maravilhoso de se ver, comprovando mais uma vez a sensibilidade de um toque feminino na direção.
''Retrato de uma Jovem em Chamas'' é um dos filmes mais bonitos que tive o prazer de ver. Sua beleza está no seu roteiro poético, envolvente e encantador, na sua produção simples, mas super caprichada e na química extraordinária entre suas adoráveis protagonistas. Delicado e sensível, é um filme para ser contemplado e sentido com toda a profundidade da alma e principalmente do coração. Uma obra-prima cinematográfica que nos conta uma linda história de amor, capaz de emocionar tanto os corações apaixonados quanto aqueles que ainda não provaram do verdadeiro amor. E isso é uma proeza que poucos filmes são capazes de fazer. Somente os melhores conseguem.
Nota: ★★★★★★★★★★ 10
RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS (PORTRAIT DE LA JEUNE FILLE EN FEU - 2019) - Romance, 121 Minutos. / ESCRITO E DIRIGIDO POR: Céline Sciamma. - ELENCO: Noémie Merlant, Adèle Haenel, Luàna Barjrami, Valeria Golino. CLASSIFICAÇÃO: 14 anos. NOTA NO ROTTEN TOMATOES: 98%
CURIOSIDADES:
* Mesmo sendo injustamente esnobado na edição do Oscar 2020, ''Retrato de uma Jovem em Chamas'' recebeu uma indicação ao Globo de Ouro na categoria de ''Melhor Filme Estrangeiro''. Além disso, fez sucesso no Festival de Cannes e foi escolhido para concorrer a Palma de Ouro na mesma categoria.
* O filme foi vencedor do ''Queer Palm'', prêmio cinematográfico independente dedicado aos melhores filmes com a temática LGBT. Essa foi a primeira vez que um filme dirigido por uma mulher venceu nessa premiação.












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